quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Não entorpecida, penso que...

Quando penso na palavra entorpecente, me remeto a seu significado na própria gramática. 'Entorpecer é enervar; tirar a energia; enfraquecer; desfalecer; desorientar-se; desalentar-se'. Confesso que a primeira vez que li não havia entendido bem o tema proposto e o pouco que li e tentei entender me remeteu a drogas e entorpecentes de uma maneira geral. É um assunto delicado, que eu nem gosto muito de tratar por soar como ofensa para alguns, mas acho que hoje é uma das poucas oportunidades que tenho de raciocinar e me expressar melhor, e aproveito o tema pra expandir e falar sobre esse mundo a qual não pertenço diretamente. Sei que isto vai ficar extremamente extenso e até cansativo, mas quero ter a consciência tranqüila de que pelo menos expus melhor o que penso; ainda mais eu, que me acho melhor na escrita do que na fala.

'Em farmacologia, os entorpecentes são designados pelos psicotrópicos que têm por principal função embotar ou insensibilizar a pessoa. Trata-se principalmente dos opiáceos, designados também de narcóticos; É aquilo que traz torpor, sono. Segundo Giuseppe Di Gennaro, o termo entorpecente acentuaria o aspecto do efeito provocado pela substância. Termo com conotação generalizada, que, na opinião popular, refere-se às drogas em geral'.

Eu mentiria se dissesse que não tenho nada contra drogas porque eu tenho sim. Não tenho contra QUEM faz uso das mais comuns, como álcool, cigarro ou maconha, porque essas pessoas se julgam suficientemente maduras pra terem motivos para usar. Sei que uma boa maioria sabe medir as conseqüências, e o ponto em que essas drogas mais comuns lhe fazem bem ou mal, e onde isso pode interferir ou não no seu convívio social positiva ou negativamente. Mas quando diz respeito a drogas alucinógenas, como o LSD e cogumelos; psicotrópicas, como cocaína, crack, ecstasy; e outras depressivas além da maconha, como a heroína; sou absolutamente contra, porque acredito que elas causam na maioria das pessoas um grau muito maior de despersonalização e eu não sou nem um pouco a favor disso. 'Em síntese, a ação de qualquer entorpecente é uma série de distúrbios psícossomáticos. A sua ação se faz sentir sobre o cérebro, entorpecendo-o, criando, assim, uma condição favorável a manifestação do sonho e da fantasia'.

Desculpem-me, mas eu quero que minhas vontades e fantasias continuem sendo manifestadas naturalmente, e quero me auto-conhecer sozinha e em sã consciência, sem precisar me descobrir estando fora do meu estado normal. É por essas e outras muitas razões, que eu tenho pavor de ficar absurdamente alterada; e digo isso não pelos efeitos das drogas ilegais, mas mesmo pelos entorpecentes legais industriais/artesanais bebíveis. É por isso que no campo da bebida, por exemplo, tento sempre me controlar nas poucas vezes que bebo. Nunca bebi e fiquei fora de mim. Tenho PAVOR de correr o risco de chegar no dia seguinte e não me lembrar do que fiz ontem; não saber como cheguei em casa, não saber o que fiz, o que falei, como agi. Tenho pavor de demonstrar a todos o meu eu interior quando eu sequer ainda o conheço perfeitamente. Eu conheço o meu limite e não quero ultrapassá-lo. Bebo, fico alegre, levemente alterada e engraçada, mas lembro perfeitamente de tudo o que fiz, falei e senti.

Quanto às drogas ilegais, as alucinógenas, psicotrópicas e as depressivas de uma forma geral, não nego de forma alguma que sou preconceituosa. Não posso lhes dar uma opinião excepcionalmente formada, mas de tudo que já ouvi e presenciei, acredito que as minhas razões para ser contra são muito mais fortes que as razões que me dão para ser a favor. Eu digo que NUNCA, e repito: nunca, NINGUÉM me deu uma razão óbvia do porquê de fazer uso da maconha –sendo esta a tão simples e comum, e a que "menos faz mal". Imagina então alguém me justificar do porquê fazer uso das demais?

Pelas diversas respostas que ouvi, eu só afirmo a mim mesma que não preciso sentir essa "onda manêêêêêira aêê". Eu gosto de me conhecer, descobrir todos os meus pensamentos e vontades mais íntimas naturalmente. Todos os meus podres, defeitos, qualidades e vontades eu conheci por ter parado dias a fio pra pensar e repensar em mim mesma como ser humano. Não preciso beber pra dançar, ficar extrovertida, engraçada ou sexy. Não preciso fumar maconha pra pensar e sentir diversas coisas, quando tenho explosões de pensamentos de diversos tipos a todo momento. Não preciso fazer uso de nada pra ter uma sensação gostosa, quando tenho diversas sensações boas só de me lembrar das coisas boas que me aconteceram por eu ser bem vivida e de bem com a vida. Desculpem-me quem faz uso e ler isso, mas EU acho que quem faz uso de drogas –aquelas que desde pequenos estudamos e ouvimos dos professores do ensino fundamental que fazem mal-, não tem amor próprio. Acho que por mais que passemos por diversas fases de vida, inclusive a de se descobrir e se reconhecer, curtir a vida e tudo o que ela tem a te oferecer, não precisamos de forma alguma fazer uso abusivo disso. E digo isso porque me uso como exemplo.

E, por favor, não venha me dizer que eu tenho que conhecer tudo antes de julgar, porque se todas as pessoas fizerem tudo pensando por esse lado, será o fim do mundo. Eu tenho vontade de matar certas pessoas e jamais faria isso pra descobrir se a sensação após é boa ou ruim (e nem me diga que, quanto a este exemplo exagerado, são coisas diferentes, porque se pensarmos pelo lado do tráfico, os usuários matam indiretamente outras pessoas todos os dias). Curiosidade faz parte do ser humano, mas como todos já sabem, ela mata. Se você não souber utilizá-la realmente a seu favor, você vai morrer. E não venha me dizer também que "vamos todos morrer mesmo, prefiro então morrer me drogando a correr o risco de morrer atropelado sem ter experimentado tudo isso". Se eu morresse hoje, eu me orgulharia, mais do que tudo, de ter sabido de muitos dos meus limites e ter muito me descoberto sem ter precisado fazer uso de nada disso. Eu me orgulharia de ter feito tudo o que eles fazem, sem ter precisado me auto-prejudicar física ou mentalmente: beijei muuuuuito na boca, fiz sexo e fiz amor, namorei pelo menos 1 pessoa por um bom tempo, fiz faculdade, soube escolher o que gostaria para o meu futuro e tive idéias para querer defender, tive pais maravilhosos, tive valor a dar e a receber, tive amigos reais e virtuais, conheci muuuuita gente, arranjei um bom emprego, vivi de diferentes formas que me foram saudáveis, fui amada e adorada por muita gente, fui extremamente elogiada pelo pouco que conquistei com a minha garra e perseverança e alcancei todos os meus sonhos até hoje pela minha dedicação e extrema determinação. Diante disso, me diga: eu precisei e ainda preciso mesmo experimentar tudo isso? Preciso mesmo ser só mais uma neste mundo tentando se descobrir dessa forma? Preciso mesmo correr o risco de ficar retardada por alguns minutos com muitos ficam, chata ou insuportável como alguns, ou depressiva como outros? Não, EU não preciso.

Tenho muitos amigos que fazem uso de algumas drogas, e a única coisa que eu exijo é que me respeitem. Se você sabe que isso me incomoda, não faça questão de fazer isso na minha frente; e se você sabe que eu tenho extremo amor e carinho por você, não me faça diminuir o que eu sinto me fazendo questão de mostrar que você mudou neste quesito desde que nos conhecemos. Respeito vocês como amigos e seres-humanos, e gosto de reciprocidade. Felizmente, quanto a isso, não tenho do que reclamar; convivo normalmente com essas pessoas.
Não tenho a intenção de fazer com que alguns amigos meus deixem de fazer uso. Acho que muitos se julgam e são maduros o suficiente pra gostarem de se entorpecer e pensar em qualquer coisa após. Outros, já deixaram claro que só fazem isso pra se sentirem "da galera". Quanto a esses, eu fico quieta e deixo que a vida um dia talvez lhes mostre o caminho certo do autoconhecimento.
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Próximo tema: Arrependimento

16 comentários:

Gabriel Zambrone disse...

Respeito totalmente sua dissertação, mas discordo grande parte. Dê-me tempo para escrever o que penso. Hoje não sei se consigo, estou enrolado, mas eu escrevo. Beijos.

Sara T. disse...

Só pra adiantar outras coisas que não disse no post: de forma alguma tenho a intenção de ofender ou alfinetar qualquer pessoa que um dia venha a ler este post. E já peço desculpas de antemão se meu texto soou como agressivo ou ofensivo para alguém. Não faço questão que ninguém concorde comigo, até porque escrevi este post sabendo que grande maioria -usuário ou não de seja lá o que for- discordaria.

Fiz este post me baseando no que OUVI e presenciei de diversas pessoas quando estas foram questionados por mim. O que eu mais quis expor neste texto -e não sei se consegui bem-, foi a busca do autoconhecimento que pra mim independe e não precisa de forma alguma de quaisquer tipo de entorpecentes. E digo isso, pelas respostas que todos me deram: que fazem uso de algumas drogas pra se sentirem bem consigo mesmo ou pra terem "viagens legais", curtirem seus momentos mais íntimos que se afloram nessas horas após o uso de algo, etc etc etc.

Mas eu gostaria muito, sim, de ler os mais diversos tipos de comentários. Espero que a partir de hoje, pela 1ª vez na vida, eu leia uma resposta coerente e que me convença de outras coisas que até hoje ninguém conseguiu. Me convencer não no sentido de que algumas drogas fazem ou não bem, mas me convencer na resposta do porquê de fazer uso quando a droga que você usa faz absurdo mal a sua saúde.

Gabriel Bastos disse...

Certo, certo...
comentando por partes:
antes de tudo, vou falar um pouco sobre bitolação.
Bem, o sujeito bitolado é aquele que não importa quais argumentos sejam expostos para ele, não mudará de opinião, característica muito comum em religiosos e etc...
Esse seu último parágrafo de comentário me lembrou inclusive qnd eu postei na comunidade "integralismo em jf" pedindo "pelo amor de deus" para eles não serem idiotas e me explicarem os tortos pontos de vista deles, pois nunca um ser de tal corrente política o fez para mim. Como eu nunca serei convencido por uma linha doq um integralista escrever, sou bitolado mesmo nesse assunto, saca?

Felizmente apenas "nesse assunto", pois em qualquer outro assunto acho que sou bem cabeça aberta.

Bem, vamos lá: antes de tudo, só não entendi o porque deq vc bebe sara. Certo, assim como durante o uso de alucinógenos, a sua personalidade e a personalidade de qualquer um fica alterada, o que foi o principal argumento usado por vc contra os mesmos. Porém, caracteriza o mesmo princípio no qual leva vc a fazer uso regular de álcool. Não que eu esteja aqui trazendo o discurso "é isso ai sara, suco de laranja pra todo mundo!!", simplesmente achei tal argumento um tanto quanto contraditório. Claro, no parágrafo seguinte, da a entender que vc coloca as ditas "drogas" de um lado e o álcool e cigarro de outro pq o mesmo é fácil controlar seus efeitos. Bem, tem muitas pessoas que eu conheço, em especial aquelas que fazem o uso "da erva" diáriamente, que sequer ficam alterados com a mesma. De acordo com eles, seus efeitos são apenas "me deixar \/" (símbolo do "paz e amor" nos dedos).

Pois bem, o princípio que vc pegou posteriormente para condenar aqueles que fazem o uso da maconha foi outro: o "auto conhecimento". Certo, provavelmente veio de alguém próximo de vc tal princípio justamente o que ficou encutido na sua cabeça. Eu já ouvi mil e um princípios. Desde dos pseudo rastafari "a maconha mudo a minha cabeça, sou uma pessoa diferente", até o mais sincero possível "pq eu quero mesmo porra!". Bem, o princípio que vc condenou eu tmb acho perfeitamente condenável. Ao meu ver, é coisa de gente sem capacidade de manifestar seus próprios conceitos e opiniões sobre o mundo e pior: sobre si mesmo! Mas... se ele é mesmo uma pessoa de cabeça e opinião fraca que precisa da erva para se auto conhecer e ficar bem consigo mesmo? Eu diria que para essa pessoa os resultados são até mesmo positivos. Claro, existem aqueles que levam resultados negativos, isso é inegável.

Acho que opiniões como as que eu vi no seu texto são comuns hj em dia, onde vemos essa cultura de se incomodar com o que na verdade não incomoda. Podemos ver várias questões: aborto, casamento gay, uso de drogas. Um aborto é pq certas religiões acham que já existe vida em certo período de gestação, outras acham que a vida começa antes ou depois, outros não acham porra nenhuma; casamento gay vem de pessoas que não suportam ver o diferente agir diferente; e por fim, o uso de drogas é o mesmo princípio: querer que as opiniões e atitudes alheias sejam sempre como as "minhas".

Por essas e outras que eu sou 100% a favor de legalizar. Na verdade, sou a favor de liberar geral: drogas, casamento gay, aborto e bla bla bla. Quero mais é que as pessoas tenham liberdade mesmo de escolher sua maneira de agir e viver (sem interferir negativamente na vida de terceiros, é claro). Olha bem, milhares de pessoas morrem no mundo todo diariamente num fogo cruzado entre polícia e traficantes simplesmente porque a constituição não garante que as pessoas possam fumar uma simples erva!! Isso é completamente irracional! Vale a pena gastar rios de dinhero público para impedir que um sujeito faça uso de uma erva? Vale a pena matar inocentes nesse fogo cruzado para impedir o seu vizinho de fazer uso dela?

Ah.... vou lhe dizer pra quem vale a pena isso tudo: pros "colarinhos brancos" que temos por ai. Sinceramente, vc ainda acha q eh um traficante que não concluiu sequer o ensino fundamental que coordena uma rede internacional de tráfico de drogas e de armas? Nos dias de hoje apenas os mais ingênuos acreditam piamente nisso. Estou falando da alta burguesia que está envolvida com isso, estou falando até mesmo de políticos envolvidos com tráfico.
Agora, se legalizasse, adeus venda sem impostos. É... realmente, vale a pena não legalizar e arriscar a vida de milhões...

Bem, quanto ao argumento daqueles que falam "um dia eu vou morrer mesmo então que se foda", concordo 100% com vc, não só com o uso excessivo de drogas mas de álcool também. No trecho seguinte a esse só tenho uma crítica: morrer com orgulho não é olhar para conquistas puramente pessoais, também é! Mas, acredito eu, que acima de tudo é olhar pra trás e procurar verificar que benefícios que vc trouxe ao mundo. Mas isso foge do assunto e não nos cabe discutir aqui nesta ocasião.

Os dois últimos parágrafos eu concordo 100%, acho que já até expliquei isso acima. E lendo eles, por fim, me leva a crer que concordamos em muitas coisas a respeito do assunto, porém de maneiras diferentes: me parece que vc é a favor de reprimir o uso de terceiros por que o considera um erro, e "que se reprima pela lei mesmo!!". Já eu, acho que todos devem fazer o que bem entenderem (claro sem ferir o espaço dos outros), e sou a favor de legalização não só para garantir essa liberdade, mas para cortar o tráfico e grande parte da violência da nossa cidade pela raiz.

Sara T. disse...

Não, de forma alguma sou a favor de reprimir.. talvez meu texto tenha soado dessa forma, mas eu deixo claro novamente: não quis ofender ninguém nem quero que ninguém concorde comigo porque, como eu disse no meu post, eu NÃO tenho uma opinião excepcionalmente formada, mas de tudo o que eu VI, OUVI e PRESENCIEI, acredito que as minhas razões para ser contra são muito mais fortes que as razões que me dão para ser a favor. E digo que sou contra, não porque penso pelo lado do tráfico ou a preocupação daqueles que morrem por tal, nem pela educação rígida que tive dos meus pais e nem só pela cabeça um tanto quanto fechada (até porque, eu acredito que o fato de querer ouvir os argumentos dos outros é, pra mim, uma forma de eu crescer como ser humano), mas sou contra por pensar pela saúde dos usuários. Se você cheira loló ou fuma maconha vez ou outra e você julga perfeitamente que isso não te afeta de forma alguma negativamente, não tenho porquê tentar persuadir você a parar. Eu NUNCA interferi nas atitudes de ninguém, por mais que eu não gostasse do que fizessem quanto às drogas. Questiono, pergunto e tento entender suas razões, e posso até recriminar no meu íntimo, mas nunca vou falar pra você parar de fazer algo. Eu não tenho esse direito.

Eu tentei priorizar no meu post menos a maconha, e mais àquelas drogas que realmente nos afetam negativamente. E meu post foi voltado não só pela busca ao autoconhecimento (que foi a desculpa que todos deram a MIM quando os questionei do porquê usarem), mas também pra uma pergunta que me deixa absurdamente intrigada: se o que você usa prejudica a sua saúde (e digo isso não só pelas drogas em geral, mas o cigarro de todo dia, o alcool exagerado de todo final de semana), por que uma pessoa continua a fazer uso, quase sempre extremamente abusivo, disso tudo? E quero deixar claro também que foi quanto a isso que julguei como falta de amor-próprio.

Sara T. disse...

Ahh, e Gabriel, só pra responder seu questionamento: como eu disse, as duas questões principais no meu post foi saúde e a busca pelo autoconhecimento. Sendo assim, acho que o fato de eu raramente beber não me faz ser contraditória pela linha que tentei seguir no decorrer do post, uma vez que eu disse que raramente bebo, não perco minha sanidade e lucidez, o pouco que bebo não me faz mal, e não uso o alcool como desculpa pra me autoconhecer ou ser uma pessoa um pouco melhor para os outros.

Gabriel Bastos disse...

certo, certo, em muitas partes concordo com vc sara. Porém...
a minha maior crítica foi de não abordar o impacto social na questão da legalização, oq eu acho que é o ponto principal. Agora, eu chego nesse ponto por dois viéis: A quebra da liberdade do sujeito de fazer escolhas nas quais vão inteferir apenas em sua vida pessoal, e na questão de cortar o tráfico pela raíz.
Mas é isso, tá legal as opiniões sendo explicitadas por aki

vlw!!

Gabriel Zambrone disse...

Vou fumar um e volto já.

Gabriel Zambrone disse...

Ver a vida como um filme, ver o lado bom das coisas, cada palavra vem como P-A-L-A-V-R-A. Cada compasso da música você sente intensamente, a guitarra braquejando junto com a mão do seu dono, a voz ressoa com uma suave brisa chegando do outono. Ver o videoclipe de uma música que vc nunca viu seu videoclipe. Você sente sua passada de mão no olho, como se fosse um trator em cima de uma plantação. Sinceridade é fruto da necessidade de compartilhar a viagem. O filme ainda rola e você é o roteirista. Consegue ir à Gávea ver o pôr-do-sol e estar em Juiz de Fora inventar que o Rio que corre por lá é limpo. Que as letras do 'Rage Against The Machine' eram pro mundo o que eram as letras do 'Planet Hemp' pro Brasil. O Manguetown do Chico Science não estanca o barulho das motos passando no asfalto molhado pela chuva com um belo rangido de freios do autobus que em Portugal significa Onibus. É o nosso querido. Que em Brasília é R$3, em Juiz de Fora e Niterói é R$2 e no Rio de Janeiro é R$2,20. Achar engraçado o Rodolfo ter saído do Raimundos e fazer parte do Ministério Bola de Neve depois de escrever tal frase: "É na igreja que o povo esvazia as bolsa
Tem quatro santos, três queimando o kunk". Inclusive, vi um vídeo hoje no youtube que tinha o título: Testemunho de Rodolfo Abrantes na Igreja Bola de Neve! - Testemunho não é um rap? Não importa, no vídeo dizia que ele estava sozinho, se sentindo a pessoa mais triste do mundo e bla-bla-bla. Mas ele era VICIADO! Ele não tinha pudor de quantidade de maconha que ele ingeria! No vídeo ele conta que toda vez que ele chegava em casa, ele chamava a namorada e falava: 'Traz a lata' - a lata, segundo ele, era uma lata enorme cheia de maconha. Depois 'num belo dia' ele chegou e falou 'Traz a Bíblia' e pensou "Ih, virei crente!". Uma história muito engraçada e motivadora, mas que ele precisava desse apoio. Minhas questões conceituais da vida (depois de ouvir bastante todo o tipo de opiniões - desde gregas de nem sei qual século até as de hoje) me impedem que religião é o que é. Religião é simplismente o apego a alguma creça. Você não VÊ, você CRÊ. E crêr é acreditar cegamente em alguma coisa, independente se já viu ou não. Você REPARA que eu to escrevendo nesse exato momento e vejo que estou escrevendo off-line, minha internet caiu. São meia-noite e trinta minutos, tem um bichinho durmindo na tela do pc, e não sei quando postarei esse comentário. Pode ser hoje, ou amanhã, o documentário que não entrará no seu verdadeiro tempo real e já são meia-noite e trinta e um minutinhos pelo horário de verão de Brasília, repito, Brasília, há mil e oitocentos quilometros de distância, mas é o mesmo horário daqui. Eu vejo MSN aberto com uma conversa cortada pela metade, com meia noite e trinta e dois minutos e achar que meia noite e trinta e dois minutos seja interessante. O filme passa, você repara detalhes que antes eram apenas eles, mas agora eles brilham que nem uma estrela de cinema - americano porque o nosso só fala de violência e pobreza, embora esse país seja mesmo uma pobreza, uma falta de ética dos que deveríam ter pelo status que têm. A língua portuguesa que aprendi, agora seguem minhas complexas palavras dentro de sua complexa linha de raciocínio. Vou ligar o ar para me resfriar, porque afinal, a internet acaba de voltar à meia noite e trinta e cinco minutos, com o filme rolando na sala de cinema e pronta pra bombar! Roteiro feito, post respondido e tudo garantido: Muito bafafá! - Reparou? ;)

Sara T. disse...

Você fumou um e viajou. Ótimo. Pela 1ª vez na vida alguém descreveu o que pensou e sentiu enquanto entorpecido. Obrigada pela colaboração. Muito bafafá, realmente. E não vou mais discutir, se eu te disser tudo o que eu já senti e penso nos mais ínfimos detalhes, você com certeza então me diria que fumei metade da maconha do mundo. E não fumei nem bebi nada. E achei realmente muito interessante seu roteiro. Mas ele é simples. Ele é SEU. Ele vem de você. Também tenho roteiros lindos, fantásticos, contraditórios, cruéis, desprezíveis, ridículos, absurdos, e muito muito muito loucos. Todo mundo têm roteiros, independente de um entorpecente. Acontece que alguns conseguem sentir tudo isso sem precisar se entorpecer, outros não. De qualquer forma, acho que nós usando ou não, estamos no caminho certo, porém em trilhas diferentes: vivendo e se conhecendo. Boa sorte na sua caminhada, um dia nossas trilhas se esbarrarão, terminaremos nossa caminhada e com certeza você me dirá: "Eu fiz isso e isso". Eu vou te responder "Eu fiz aquilo e aquilo". Teremos feito coisas diferentes e vivido diferentes, longe ou não um do outro. Mas nossas frases vão terminar iguais: "Vivemos".

Gabriel Zambrone disse...

Perfeito. A vida independente de entorpecentes é única. A crítica não é pela vida. Você pode ter seus roteiros e eu também posso ter sem me entorpecer. Mas com ele eles se tornam evidentes, ganham vida, não ficam perambulando por aí como se fossem sem nexo. As coisas ganham valor, que mal pode estar nisso? Você vê a vida com uma outra perspectiva, os detalhes ficam bonitos, seu ponto focal que fica padronizado no dia-a-dia do trabalho, do estudo, do fazer nada, distorce e começa a perceber atos falhos, atos belos, figuras intrínsecas da vida da natureza e da vida da própria natureza humana.
A discussão não é se tem que usar ou não, longe disso! Cada um pode se drogar assistindo comercial das Casas Bahia, O programa da tarde explorando a vida íntima de pessoas sem rumo, pagando a carga tributária de um país de quinto mundo... O que é mesmo uma droga? Que droga! - Uma coisa muito pertinente tem que ser dita: Só usa quem sabe que o limite do corpo permite, até porque qualquer substância de qualquer característica que for pode desregular o equilíbrio de seu organismo. Agora se vc consegue pensar em tudo que falei sem precisar de absolutamente nada, que inveja! =) 'Se enxerga, vê. Se vê, repara'.

Sara T. disse...

Se o que você usa pra se entorpecer não faz mal pra sua saúde, seja porque ele é fraco ou porque você não faz uso freqüente nem abusivo, ACHO que não há mal nenhum. Acontece que nem todas as pessoas sabem o limite que o corpo permite. Muitas pessoas ACHAM que sabem o seus limites. E se você se deixar levar, as drogas te levam junto fácil fácil. E você não vai saber voltar sozinho depois. E você vai sair muito prejudicado no final. Se você, a Julia, e tantos outros conhecidos que fazem uso de entorpecentes, realmente se julgam sábios do que fazem quanto às drogas que usam (e como te conheço perfeitamente bem, não duvido quanto a isso), eu não tenho porquê questionar. Até porque, o objetivo do meu post foi colocar em questão duas coisas (que você não me deu ênfase): saúde e autoconhecimento. Não sei o que vocês pensam quanto a saúde de vocês versus os entorpecentes que vocês usam. Mas quanto ao autoconhecimento, eu continuo achando que as drogas são desnecessárias. O roteiro que você me deu é absurdamente simples e nada a ver. Talvez o fato dele não ter muito nexo é o que faz dele tão fantástico. Não me entorpeci nesta vida pra saber qual é a sensação e quais são os pensamentos que lhe surgem. Mas você tendo sido o primeiro que me deu um roteiro, eu só te digo que continuo achando que isso não te faz se autoconhecer melhor. Ainda mais porque você, como você mesmo disse, consegue ter roteiros fantásticos sem precisar estar entorpecido -como eu tenho, a cada segundo. Muita coisa tem nexo, ganha vida e se tornam perfeitamente evidentes pra mim sem eu me entorpecer. É como a meditação também: quem medita de verdade entra em transe, são as pessoas mais 'lindas' do mundo. E eles não usam entorpecente algum. E com certeza o que eles têm a oferecer ao mundo é muito mais belo e forte do que o que você, todos os outros entorpecidos, eu, e muitas outras pessoas comuns deste mundo temos (não querendo desmerecer nem você, nem eu mesma, nem ninguém, claro). Mas se você passou a se autoconhecer melhor depois que começou a fazer uso dos entorpecentes, acho ótimo desde qye eles não interfiram na sua saúde! Espero que você continue se autoconhecendo cada vez mais, descobrindo todos os seus defeitos e qualidades, aprendendo a fazer uso deles pra ser melhor a si mesmo e para os outros. É o que eu espero pra você, pra mim, e pra todas as pessoas do mundo. Enfim, cada um é cada um. Se os entorpecidos têm uma convivência respeitosa com quem não é e vice-e-versa, acho que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena". Até porque, cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é. :)

Gabriel Zambrone disse...

Adorei a última frase. E acho que é isso. =)

Raíza disse...

!@#$%@!&
Eu tinha escrito um texto grandão e do nada ele some!! É pra ter muita raiva nessas horas ¬¬

Bom, adorei seu texto Sara, realmente o tema é delicado, polêmico. Na minha opinião o indivíduo sabe (ou acha que sabe) o que faz com sua própria vida e que as consequências de qualquer coisa virão mais tarde.

Confesso que não gosto de drogas, não faço uso e não entendo porque tem gente que usa se "sabe" que faz mal.
Exteriormente não estou nem aí se fulaninho consome ou não, mas interiormente tento entender o motivo dele consumir.

Mas cada um sabe (ou não) dos seus limites, tem gente que consome "moderadamente" e não vicia, pelo menos não aparentemente. Mas tem gente que se apega de um jeito a ponto de precisar de tratamento, a ponto de morrer de overdose. Tudo em excesso faz mal. Entretanto, até que ponto o consumo pode ser "saudável" (se é que é esse o termo) e a partir de que ponto torna-se arriscado (não sei se esse pensamento pode ser aplicado a drogas mais pesadas), já li sobre estudos que utilizaram a maconha como parte do tratamento de pessoas com uma determinado tipo de doença.

Digo, assim como a droga ilícita prejudica (a lícita também, mas esse não é o foco), também pode ser usada com fins medicinais. E assim como tem gente que toma remédio pra controlar/tratar sua doença, também tem gente que é viciada em remédio, e este não deixa de ser uma droga, não deixa de fazer mal.

Em relação ao autoconhecimento posso afirmar que não preciso de coisas que venham de fora para me autoconhecer, não preciso de entorpecentes para fazer com que eu saiba mais sobre mim. Tudo que eu preciso para me conhecer sempre esteve comigo...pensamentos, emoções, crenças, ideais. Em outras palavras, o que você escreveu sobre autoconhecimento no post, eu concordo.


Pois bem... não existe certo ou errado, isso varia com a percepção de cada um, com a cultura de cada um. EU penso ser errado consumir uma coisa que provavelmente vai viciar e fazer mal a mim mesma, eu me amo o suficiente pra não permitir que tal coisa aconteça. Fulano pensa ser certo conhecer coisas novas e experimentar uma ervazinha, ele se ama o suficiente pra se dar tal oportunidade. Fazer o quê... a vida é dele, quem vai curtir ou sofrer mais tarde é ele, não eu.

Pode parecer egoísta a última fras. Vontade de ajudar existe, claro. Mas tem pessoas que simplesmente não querem ajuda.
Enfim: Drogas, entra quem quer, sai quem consegue XD

obs.: Não tenho o intuito de ofender quem consome, o que está escrito é meu ponto de vista ;)

Gabriel Zambrone disse...

"Vontade de ajudar existe, claro. Mas tem pessoas que simplesmente não querem ajuda".

Só queria saber o por quê do motivo da ajuda. Ajuda deveria ser pra quem é viciado. Quem têm sérios problemas.

Temos viciados em Coca-Cola, mas podemos bebê-la de vez em quando (ela não faz mal, não?!); temos viciados em compras, mas podemos fazê-las de vez em quando (ela não faz mal, não?!); temos viciados em video games, mas podêmos jogá-lo de vez em quando (ele não faz mal, não?!); temos viciados em religião -fanáticos-, mas podemos ponderar ou refletir sobre a vida sem se ater fielmente aos pensamentos de um pensador (se ele cria rivalidade com outras pessoas que acreditam em outro pensador, ele não faz mal, não?!).

Tudo em excesso faz mal. O medo de experimentar uma droga eu comparo ao medo de um homem de virar gay. Vai que ele gosta? (aiuhaiuha)

A pessoa tem que estar bem centrada, bem resolvida, bem ajuizada pra fazer certas coisas que podem te corromper. Se você não for maior que o problema, o problema te engole.

Sara T. disse...

Aí é que está, Zambrone!! Nem todas as pessoas sabem dos seus limites!! Tem pessoas que começam só cheirando loló, ou com a maconhazinha dos finais de semana. Depois a maconhazona de 1 dia sim e 1 dia não. E depois pula pra outras coisas. E aí vai se perdendo neste mundo, SEM PERCEBER. Tem gente com sérios problemas quanto às drogas e não querem ajuda porque acham que não precisam de ajuda. Óbvio que não é o seu caso e acredito que não seja o de ninguém em comum. Realmente, TUDO em excesso faz mal. Amor em excesso, sexo, ciúmes, insegurança, segurança, chocolate, fast foods, coca-cola, religião, futebol, auto-estima, baixa auto-estima, etc etc etc. Tudo em excesso faz mal. Acontece que tem gente que faz uso EXCESSIVO de entorpecentes (sejam os pesados ou os 'leves') e ACHA que não faz. E às vezes, a pessoa só acha que é uma pessoa bem centrada, bem resolvida e bem ajuizada sendo que na verdade é só mais uma neste mundo que NÃO se autoconhece e fica tentando descobrir isso inultimente através das drogas e só pra se sentir da "galera". Pode ser que a maconhazinha de leve não a corrompa de forma alguma nem destrua muito sua saúde, mas ela vê as coisas de forma distorcida, acha coisas dela mesmo que de forma alguma condiz com a sua própria realidade. E isso não vai afetar a ninguém próximo, mas só a ela mesmo depois de um tempo, e isso pode acarretar outras séries de problemas.

Gabriel Zambrone disse...

Perfeito!

- só pra complementar -

Como eu disse: "Se você não for maior que o problema, o problema te engole".